Quando as pedras falam: uma proposta metodológica para interpretação histórica da cultura material a partir de Cesareia Marítima

Autor
Junio Cesar Rodrigues Lima
Instituição
NEA/UERJ
E-mail
revjuniocesar@gmail.com
Área temática
História Antiga • Arqueologia

O predomínio da documentação escrita na pesquisa histórica frequentemente relegou a cultura material a uma função complementar, limitada à ilustração ou à confirmação das fontes literárias. Este artigo propõe um procedimento metodológico que integra documentação textual, cultura material e organização espacial em uma mesma operação analítica, ampliando as possibilidades de investigação das relações políticas e socioculturais no mundo antigo.

Partindo do diálogo entre História, Arqueologia, Geografia Cultural, Antropologia Histórica, Análise de Discurso e Hermenêutica, o estudo apresenta critérios para a interpretação histórica das cidades como documentos materiais. A aplicabilidade desse procedimento é demonstrada por meio da análise urbanística e sociocultural de Cesareia Marítima, cidade fundada por Herodes Magno no final do século I a.C.

A leitura integrada de sua implantação territorial, monumentalidade e organização dos espaços públicos evidencia que o urbanismo participou ativamente da construção da autoridade régia, da administração da diversidade sociocultural e da inserção política da Judeia no contexto do Mediterrâneo romano. Conclui-se que a articulação entre documentação escrita e cultura material amplia o potencial interpretativo da pesquisa histórica e oferece novas perspectivas para o diálogo entre História e Teologia, ao reconhecer o espaço urbano como uma dimensão constitutiva da experiência histórica.

Palavras-chave: Cultura Material; Discurso Urbano Materializado; Herodes; Cesareia Marítima; História Antiga; Hermenêutica Teológica.

Keywords: Material Culture; Materialized Urban Discourse; Herod the Great; Caesarea Maritima; Ancient History; Theological Hermeneutics.

A história sociocultural do mitreu de Vercovicium a partir dos altares ao Mitra

Autora
Sofia Amélia Rego D'Andrea
Instituição
UFJF
E-mail
sofia.amelia.2001@gmail.com

Na Crise do Terceiro Século (235-284), o mitreu – templo subterrâneo dedicado à divindade Mitra – localizado no forte de Vercovicium, atualmente um sítio arqueológico em Housesteads, Inglaterra, próximo ao Muro de Adriano, no norte da província romana da Britânia, permaneceu em atividade. Pois oficiais, soldados e outros integrantes o frequentaram e ergueram três altares votivos – RIB (Roman Inscriptions of Britain) 1599, 1600 e 1601 – e dois relevos – CIMRM (Corpus Inscriptionum et Monumentorum Religionis Mithriacae) 853 e 860 – relacionados ao culto de mistério Mitraísmo. As inscrições dos altares registram os votos, os nomes dos imperadores reinantes, Treboniano Galo e Volusiano (r. 251-253), bem como os nomes e as ocupações dos dedicantes – beneficiarus consularis Litorius Pacatianus, centurio Publicius Proculinus e Herion. Já os dois relevos apresentam representações mitraicas: a tauroctonia e o nascimento, que evidencia “sincretismo” com as divindades gregas Aion e Fanes (Hodgson, 2017, p. 157).

Em vista disso, a presente comunicação adota como referencial teórico a historiografia sociocultural proposta por Roger Chartier (1991, p. 179), que defende o “cruzamento de uma história das práticas, social [...] e de uma história das representações inscritas nos textos”. Assim, busca-se reconstruir parcialmente a vida política e social dos três membros do culto, bem como os princípios religiosos e culturais presentes no mitreu de Vercovicium, por meio da análise dessas fontes epigráficas, sem desconsiderar os contextos da Crise do Terceiro Século e do Principado (27 AEC-235 EC). Para tanto, dialoga-se com as contribuições de Franz Cumont (1896), de João Marques (2015), de Nick Hodgson (2017) e de Ismael Woolf (2025).

Dito isso, a presente comunicação propõe três hipóteses principais: 1) Litorius, por ocupar a posição mais privilegiada entre os dedicantes, tenha sido, possivelmente, o responsável pela concepção do “sincretismo” religioso representado no relevo CIMRM 860; 2) Publicius, por exercer a função de centurião, provavelmente teve contato com os imperadores em algum momento de sua carreira militar, razão pela qual registrou seus nomes; 3) Herion, cujo nome sugere ascendência helênica, e que não menciona sua profissão, fosse provavelmente um escravo ou liberto que atuava como victimarius do culto, isto é, o responsável pelos sacrifícios de animais.

Palavras-chave: Epigrafia; Mitraísmo; Vercovicium; Império Romano.

"Eu sou Mesha, filho de Kamos, rei de Moab": uma análise sobre a revolta moabita a partir da Estela de Mesha e da Bíblia Hebraica.

Autor
Thiago Moreira de Oliveira Marcelino
Instituição
UFJF
E-mail
thiagoliveira08754@gmail.com

A Estela de Mesha, descoberta em 1868 pelo missionário alemão Frederick Augustus Klein em Dibon, antiga capital do reino de Moab, e atualmente armazenada no Museu do Louvre, em Paris, é uma das mais importantes fontes epigráficas para a história do Levante Antigo.

A coluna de basalto, com aproximadamente 125 cm de altura por 69 cm de largura e 37 cm de espessura, foi redigida por Mesha, rei moabita, no final do século IX AEC, e descreve o período de revolta de seu povo após aproximadamente 40 anos de vassalagem ao reino de Israel. Embora a narrativa da Estela ateste o fim do domínio israelita sobre Moab, a Bíblia Hebraica (2 Reis 3) relata o mesmo conflito, porém com um final distinto, em que o rei Jorão de Israel consegue conter a revolta e mantém o reino de Moab sob seus domínios.

Diante dessa divergência entre as fontes e do fato de, como apontado por Marc Bloch, “textos ou os documentos arqueológicos, mesmo os aparentemente mais claros e mais complacentes, não falam senão quando sabemos interrogá-los" (Bloch, 2001, p. 57), esta comunicação tem como objetivo promover um diálogo entre epigrafia, arqueologia e história em torno da revolta moabita, analisando como esse acontecimento foi narrado por israelitas e moabitas, observando como suas descrições se aproximam e se afastam a fim de legitimar o domínio de um reino sobre o outro. Essa análise será conduzida por meio da comparação entre os elementos narrativos compartilhados pelas duas fontes, considerando seus contextos de produção, seus objetivos políticos e suas estratégias de legitimação do poder.

Palavras-chave: Revolta moabita; Estela de Mesha; Bíblia Hebraica.

A relação entre a Pérsia e Atenas nos séc. VI e V AEC: A partir da antropologia econômica de Karl Polanyi.

Autor
Jerrison Patu de Melo Alves
Instituição
UFRJ
E-mail
jerrisonpatu@gmail.com

Partimos da antropologia econômica para compreender a conectividade comercial entre a pólis dos atenienses e os persas que se consolidou com a reciprocidade entre Atenas e a Pérsia, na qual se iniciou no séc. VI A.E.C. durante o ostracismo de Clístenes e seus apoiadores, que, ao serem expulsos de Atenas, se refugiaram na Pérsia. Após esse primeiro contato político e comercial, no período de Péricles, séc. V A.E.C, há a criação da misthoi/ pagamentos pelos serviços prestados o que amplia o espaço de mobilidade, de compra e de venda, em Atenas, bem como fortalece as relações simétricas com a Pérsia para a entrada dos produtos persas na Ágora/lugar de mercado através da zona portuária do Pireu. Com isso, investigaremos essas movimentações de pessoas, bens e produtos entre essas duas regiões através das documentações imagéticas, contidas nas cerâmicas áticas e nos relevos do palácio de Apadana, em Persépolis.

Palavras-chave: Economia; comércio; atenienses; persas.

As Materialidades da Alimentação Medieval

Autor
Flavio Gomes Figueira Camacho
Instituição
UERJ
E-mail
flavio@grupovipnet.com.br

A alimentação na Baixa Idade Média ultrapassava sua função biológica, constituindo-se como uma prática social permeada por significados políticos, religiosos e culturais. Este trabalho propõe analisar a alimentação medieval sob a perspectiva da cultura material, compreendendo-a como um conjunto de relações estabelecidas entre pessoas, objetos, alimentos e espaços. Parte-se da hipótese de que a experiência de comer era materializada em diferentes dimensões que, articuladas, contribuíam para a construção e a reprodução das hierarquias sociais.

Para essa análise, são propostas quatro materialidades da alimentação medieval: os alimentos, compreendidos como bens dotados de valor econômico e simbólico; os objetos, representados por utensílios, recipientes e instrumentos utilizados no preparo e no consumo das refeições; os espaços, como cozinhas, refeitórios monásticos e salões de banquetes, organizados segundo funções e distinções sociais; e os corpos, entendidos a partir das práticas, gestos, etiquetas e normas que regulavam o ato de comer.

O estudo fundamenta-se em fontes como livros de receitas, registros administrativos, tratados médicos, regras monásticas e obras literárias produzidas entre os séculos XII e XIV, dialogando com a História da Alimentação, a História Cultural e os estudos de Cultura Material. Ao privilegiar uma abordagem integrada dessas quatro materialidades, busca-se demonstrar que a alimentação medieval constituiu um importante mecanismo de produção de identidades, distinções sociais e relações de poder, contribuindo para ampliar as possibilidades interpretativas da vida cotidiana na Idade Média.

Palavras-chave: Alimentação medieval; Cultura material; Baixa Idade Média.

Imortalidade em fragmentos: a agência apotropaica dos "tijolos mágicos" egípcios

Autora
Maria Eduarda de Almeida Vaz
Instituição
Museu Nacional (UFRJ) – Mestranda
E-mail
mariaeduarda.davaz@gmail.com

Utilizados com maior frequência a partir do Reino Novo, os “magical bricks” egípcios eram espécies de blocos de argila crua nos quais eram inscritas passagens do Livro dos Mortos e sobrepostos amuletos de proteção apotropaica aos recém-falecidos contra possíveis adversidades em sua trajetória ao pós-vida. Dedicados a apenas cem indivíduos aproximadamente, sobretudo homens, os tijolos mágicos eram posteriormente armazenados em nichos nas paredes das tumbas de modo em que todo o cômodo fosse vigiado de acordo com os quatro pontos cardeais. Nesta comunicação, propõe-se uma investigação da produção e dos usos de tal mobiliário funerário sob lentes pós-processualistas da Arqueologia Funerária e da Antropologia da Morte, apoiadas nos autores Mike Parker Pearson (1999) e Louis-Vincent Thomas (1983) respectivamente.

Diante de uma civilização detentora de múmias espetacularizadas, sarcófagos folheados a ouro e escaravelhos decorados com gemas, tais supostos meros tijolos parecem ter deliberadamente passado despercebidos nas escavações e na bibliografia especializada. Por mais diversas que sejam as variações e anomalias encontradas na performance arqueológica, parte-se do pressuposto que os tijolos são capazes de oferecer uma série de informações válidas e relevantes sobre o seu papel ritual e religioso no cotidiano egípcio, o seu alcance e as suas possíveis influências.

Para a comunicação proposta, argumenta-se que a manipulação mágico-religiosa desse tipo de artefato reproduz ativamente intencionalidade e agenciamento, sobretudo naqueles mecanismos que mediam as relações entre Kemet, o mundo dos vivos, e Duat, o mundo dos mortos, e entre estes e o cosmos. Afinal, a agência da cultura material complexifica ainda mais a maneira pela qual vivos e mortos se apropriam das referências socioculturais existentes e orientam suas ações ao longo do tempo.

Palavras-chave: Agência; Arqueologia; Egito Antigo; Magical bricks; Morte.

Os grafites de Khirbet Beit Lei e a materialidade do culto a YHWH

Autor
Matheus da Silva Carmo
Instituição
UFJF
E-mail
mateuscarmo.ms@gmail.com

A presente comunicação analisa os grafites paleo-hebraicos encontrados na tumba de Khirbet Beit Lei, descoberta em 1961 na Sefelá do antigo reino de Judá, destacando os principais debates epigráficos, arqueológicos e historiográficos acerca de sua datação, reconstrução textual e contexto de produção. Desde sua publicação, as inscrições têm sido objeto de diferentes propostas de leitura, especialmente por Joseph Naveh (1963) e André Lemaire (1976), cujas reconstruções permanecem amplamente debatidas.

Entre os textos, destaca-se a Inscrição I, transliterada como YHWH ʾLHY KL HʾRṢ HRY YHWDH LʾLHY, traduzida por Lemaire como: "YHWH é o Deus de toda a terra; as montanhas de Judá pertencem ao Deus de Jerusalém." A inscrição evidencia a associação entre YHWH, Jerusalém e o território judaíta, ao mesmo tempo em que atribui à divindade uma soberania universal. A Inscrição II, transliterada como PQD YHWH HNN.NQH YH YHWH, é interpretada como a súplica: "Intervém, YHWH misericordioso; absolve, ó Yah, YHWH.", revelando uma dimensão devocional marcada pelo pedido de intervenção e perdão divinos. Já a Inscrição III, transliterada como HWŠʿ [Y]HWH, traduzida como "Salva, YHWH.", constitui uma breve invocação em favor da ação salvífica da divindade.

Em conjunto, as inscrições expressam uma religiosidade na qual YHWH é concebido como protetor, salvador e senhor de Judá e de Jerusalém. A comunicação fundamenta-se no conceito de materialidade da religião de Birgit Meyer (2011), compreendendo os grafites como artefatos por meio dos quais a devoção a YHWH é materializada, mediada e socialmente experienciada. Também dialoga com a interpretação de Alice Mandell e Jeremy D. Smoak (2016), que atribuem às inscrições uma função protetiva vinculada ao contexto funerário, aproximando-as de tradições presentes no Salmo 18. Dessa forma, pretende-se demonstrar que os grafites de Khirbet Beit Lei constituem importante evidência para a compreensão das práticas religiosas e fúnebres judaítas e da construção material da presença de YHWH no antigo território judaíta, evidenciando que, para além do texto bíblico, a cultura material também atesta a forte presença do culto a YHWH nesse território.

Palavras-chave: YHWH; Khirbet Beit Lei; Materialidade da religião; Grafites paleo-hebraicos.

Animais da alteridade: representações de camelídeos em arte Aquemênida sob uma perspectiva ecocrítica

Autora
Amanda Müller Guadiz
Instituição
Unicamp
E-mail
a265813@dac.unicamp.br

A presente proposta de comunicação tem por objetivo analisar, por meio dos relevos que decoram as paredes da escadaria da face norte do palácio real da Apadana, em Persépolis, a construção da imagem sociocultural associada ao Império Persa Aquemênida. Para empreender essa tarefa, se buscará explorar as relações entre ‘humano’ e ‘ambiente’, sob uma perspectiva ecocrítica e que volta sua atenção para certos aspectos da materialidade das obras, enfatizando a agência das imagens, mas também dos sujeitos por elas representados e dos componentes físicos que lhes dão corpo.

Propõe-se, então, um estudo da representação animal na arte Aquemênida como possível via de acesso para a compreensão das identidades que começam a se desenhar durante a Antiguidade, uma vez que a construção de identidade é um processo tão histórico quanto perene, que ocorre de diversas maneiras. Uma das formas mais proeminentes no período em questão é a produção de alteridade, frequente assunto da arte produzida ao longo dele. Assim, adotando especificamente as figuras de camelos como objeto de interesse, por compreendê-los não apenas como motivos iconográficos, mas também como animais e figuras dotadas de agência - e considerando sua premência e significância no léxico imagético grego ao tratar da Pérsia - esta comunicação pretende investigar as relações do animal e suas representações com o processo de construção de uma suposta identidade persa, aventando a hipótese de que o animal figure como uma espécie de marcador de diferença polivalente em mais de uma cultura antiga.

Assim, esta comunicação fundamenta seu arcabouço de fontes, em primeira instância, no que se considera como o referencial “oriental”, através principalmente da arte persa, mas sem ignorar as fontes clássicas e o meio social mais amplo em que se inserem. Almeja-se com isso uma apreciação do problema que seja qualificada e informada em fontes diversificadas, em consonância com o trabalho intelectual dos autores estabelecidos no campo do material turn da história da arte contemporânea. Sugere-se aqui, enfim, uma possibilidade de rastreio do surgimento de um programa iconográfico e discurso imagético - a representação de camelídeos como marcador de diferença - que perdura em meio a negociações identitárias e sociais ao longo do tempo.

Investigar a relação entre o humano e o animal implica estar atento não apenas às interações entre os grupos, mas também às maneiras pelas quais os animais se tornam símbolos, totens e figuras, e como são colocados em categorias antropocêntricas: o animal útil, o animal de trabalho, o animal doméstico, o animal de estimação. Reduzir a presença animal a mera escolha estilística ou pura representação de ideias abstratas é ignorar um corpus vasto que data desde as pinturas rupestres e exclui um grupo de sujeitos que é o mais representado dentre todos os atributos não humanos presentes na arte. Desse modo, espera-se contribuir com novas conclusões através da análise de novos sujeitos, inclusive não humanos, em fontes clássicas e orientais quando se trata de Antiguidade, e mais especificamente, quando se trata do Império Persa Aquemênida e dos principais discursos acerca dele engendrados.

Palavras-chave: Arte Antiga; Alteridade; Materialidades; Animais em Arte; Camelídeos.