A história sociocultural do mitreu de Vercovicium a partir dos altares ao Mitra
Na Crise do Terceiro Século (235-284), o mitreu – templo subterrâneo dedicado à divindade Mitra – localizado no forte de Vercovicium, atualmente um sítio arqueológico em Housesteads, Inglaterra, próximo ao Muro de Adriano, no norte da província romana da Britânia, permaneceu em atividade. Pois oficiais, soldados e outros integrantes o frequentaram e ergueram três altares votivos – RIB (Roman Inscriptions of Britain) 1599, 1600 e 1601 – e dois relevos – CIMRM (Corpus Inscriptionum et Monumentorum Religionis Mithriacae) 853 e 860 – relacionados ao culto de mistério Mitraísmo. As inscrições dos altares registram os votos, os nomes dos imperadores reinantes, Treboniano Galo e Volusiano (r. 251-253), bem como os nomes e as ocupações dos dedicantes – beneficiarus consularis Litorius Pacatianus, centurio Publicius Proculinus e Herion. Já os dois relevos apresentam representações mitraicas: a tauroctonia e o nascimento, que evidencia “sincretismo” com as divindades gregas Aion e Fanes (Hodgson, 2017, p. 157).
Em vista disso, a presente comunicação adota como referencial teórico a historiografia sociocultural proposta por Roger Chartier (1991, p. 179), que defende o “cruzamento de uma história das práticas, social [...] e de uma história das representações inscritas nos textos”. Assim, busca-se reconstruir parcialmente a vida política e social dos três membros do culto, bem como os princípios religiosos e culturais presentes no mitreu de Vercovicium, por meio da análise dessas fontes epigráficas, sem desconsiderar os contextos da Crise do Terceiro Século e do Principado (27 AEC-235 EC). Para tanto, dialoga-se com as contribuições de Franz Cumont (1896), de João Marques (2015), de Nick Hodgson (2017) e de Ismael Woolf (2025).
Dito isso, a presente comunicação propõe três hipóteses principais: 1) Litorius, por ocupar a posição mais privilegiada entre os dedicantes, tenha sido, possivelmente, o responsável pela concepção do “sincretismo” religioso representado no relevo CIMRM 860; 2) Publicius, por exercer a função de centurião, provavelmente teve contato com os imperadores em algum momento de sua carreira militar, razão pela qual registrou seus nomes; 3) Herion, cujo nome sugere ascendência helênica, e que não menciona sua profissão, fosse provavelmente um escravo ou liberto que atuava como victimarius do culto, isto é, o responsável pelos sacrifícios de animais.